Dados à Mesa: visualizando o sistema alimentar da cidade de São Paulo

Gabriela Momberg

Acredito que para começar um projeto de design da informação seja necessário o envolvimento com múltiplos campos do conhecimento. Desde que tenho discutido sobre segurança alimentar com pessoas à minha volta, não conheço alguém que não tenha se inspirado diante da ideia de transmitir e visibilizar dados relacionados ao tema, pelas mais diversas motivações: planejamento de políticas públicas, conscientização para o consumo responsável, mobilização política, articulação de ações sociais, entre outras possibilidades.

Dados à Mesa é um trabalho final de graduação apresentado em 2020 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, orientado pelo Prof. Dr. Leandro Velloso. A partir de metodologias do Design da Informação (DI), da Design Research e do Design Centrado no Humano (DCH), foi elaborada uma coleção de estamparia para guardanapos e panos de prato, baseada em dados relacionados ao sistema alimentar na cidade de São Paulo. O objetivo principal era criar uma experiência de contato do cidadão paulistano com a informação disponível em dados abertos.

Imagem produzida pela autora

O projeto foi, desde o princípio, orientado pelo DI. O desenho da pesquisa incluiu uma fase preliminar de revisão exploratória de fontes e de imersão no universo do usuário. Desta introdução, seguiu-se para uma modelagem de dados e visualizações. Estas fontes — a análise exploratória de dados e a pesquisa de usuário — alimentaram a etapa de ideação, cuja sequência foi dada pela prototipagem das alternativas geradas.

O contexto que mobilizou as primeiras pesquisas bibliográficas é dado pelo cenário de oferta e consumo em São Paulo. Estar em contato com projetos de desenvolvimento sustentável para a cidade, ao mesmo tempo vivenciando um centro urbano onde a predominância de ultraprocessados é ostensiva diante da classe trabalhadora, suscitou o interesse pela visualização de informação sobre o ambiente alimentar que se estabelece no território e as condições sociais que se relacionam a isso.

Corredor de supermercado com prateleiras repletas de doces e produtos ultraprocessados

Imagem produzida pela autora

Em uma abordagem inicial com a visualização de dados, foi realizada uma análise exploratória de dados abertos, coletados de plataformas de instituições públicas e de órgãos independentes que disponibilizaram informações recentes relacionadas ao sistema alimentar — infraestrutura de abastecimento, estabelecimentos comerciais, mercado de trabalho, cobertura vegetal, unidades de produção agrícola, entre outros dados.

Com o objetivo de criar um projeto de DI que se comunicasse com o cidadão paulistano, foi essencial adotar metodologias do DCH. Dessa forma, a etapa de imersão consistiu na realização de entrevistas com usuários que, de diferentes perspectivas, estavam envolvidos com a cadeia da alimentação na cidade de São Paulo. As conversas foram semiestruturadas a fim de observar relações que essas pessoas estabeleciam entre o espaço e a alimentação.

Painéis com centenas de post-its coloridos organizados durante a análise da pesquisa de usuário

Diagrama de Afinidades: método de processamento e análise da pesquisa de usuário

Da imersão resultaram oito categorias temáticas que orientaram um exercício de geração de soluções. As visualizações se estruturam da seguinte forma: três séries temáticas compostas por um mapa municipal e 96 combinações de gráficos que representam cada distrito de São Paulo.

  • Série 1: apresenta a proporção de terrenos vagos e áreas livres, comparada à quantidade de estabelecimentos em que se pode consumir alimentos no modelo de circuito curto, e ainda à quantidade de famílias em extrema pobreza.
  • Série 2: apresenta o cenário da oferta no mercado formal de alimentos, comparando estabelecimentos de oferta de ultraprocessados, in natura ou mistos, a áreas em vulnerabilidade social.
  • Série 3: com um olhar sobre o mercado de trabalho informal, tem-se a renda média domiciliar comparada ao número de microempreendedores individuais na categoria de entrega rápida, e a distância diária percorrida entre moradia e local de trabalho de entregadores ciclistas de aplicativo.

Mapa mental com o tema imersão ao centro e categorias temáticas ramificadas

Categorias resultantes do Diagrama de Afinidades

Conjunto de esboços manuais com estudos de visualizações de dados

Geração de alternativas por meio de esboços manuais

Como resultado da ideação tivemos também a definição do suporte. A escolha por um projeto de estamparia se deve a um processo de análise das categorias temáticas, na qual se considerou o pano de prato e os guardanapos como potenciais veículos para a informação, uma vez que o artefato têxtil pode se ambientar em locais de consumo alimentar.

Três séries de estampas com mapas de São Paulo e gráficos por distrito aplicados em tecido

Colagem de fotos de experimentos de estamparia em tecido com stencil, carimbo e tingimento

Experimentação com técnicas de estamparia

A produção dos protótipos foi imbuída de caráter experimental. No entanto, a prototipagem artesanal provou-se possível e interessante à medida em que institui uma dinâmica de cuidado e sensibilização para com os dados. O tempo que se leva para estampar cada ponto de dado no tecido pode ser entendido como uma dimensão da experiência sensorial para além da visualização.

Colagem de fotos da produção de protótipos em serigrafia, imersão e stencil

Produção de protótipos de alta fidelidade em serigrafia, imersão e stencil

Uma das reflexões que este trabalho suscita é a de que visualizar dados pressupõe não apenas um sujeito, mas uma interface, e portanto, escolhas de projeto que poderão interferir em sua ambientação. A visualização da informação na estamparia busca trazer à mesa novas camadas de percepção acerca do lugar e do sistema em que um ato cotidiano se situa.

Panos de prato e guardanapos estampados finalizados, dobrados e empilhados

Guardanapos estampados com nomes de distritos de São Paulo dispostos em círculo sobre mesa de madeira

Imagens produzidas pela autora


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.