Entrevista Cecília do Lago — Cityvis Award 2018

Rodrigo Medeiros

Recentemente saíram os projetos vencedores do Cityvis Award 2018 e tivemos dois projetos brasileiros no shortlist da categoria Journalistic, o Cellphone robberies (representado pela Cecília do Lago) e o StreetMusicMap (representado pelo Daniel Bacchieri). Então resolvi fazer uma entrevista com cada um deles para conhecermos mais do projeto e tentar entender a evolução da área no Brasil. Começamos com a Cecília do Lago.

Datavizbr: Primeiramente agradeço a participação no Datavizbr e gostaria que você contasse um pouco a história do projeto.

Cecília: A reportagem sobre roubo de celulares em São Paulo foi meu primeiro grande projeto quando fui convidada a fazer parte da equipe do Estadão Dados. Nele, fiz a apuração de dados e a visualização tanto para o digital quanto para o impresso. A apuração de rua foi feita por dois repórteres de Metrópole, o Bruno Ribeiro, especialista em cobertura local e o Marco Carvalho, setorista de segurança pública. Numa conversa com a equipe, percebemos que muitos dados de segurança traziam uma informação crucial para a viabilidade do projeto, as latitudes e longitudes de cada ocorrência. Esse projeto nasceu como uma experimentação e se tornou um especial quando nós percebemos que metade das ruas da capital tinham sido atingidas por algum roubo em 2 anos. Isso nos mostrou como esse tipo de crime se deslocou para a periferia, se “democratizando” e afetando milhões de paulistanos. Um crime que não vê classe social.

Datavizbr: Quais as dificuldades que você teve para executar o projeto?

Cecília: As maiores dificuldades foram em relação à qualidade dos dados fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. A SSP possui muitos dados abertos em transparência ativa, em seu site, isso é muito positivo. Entretanto, ainda não há uma API em que você possa fazer um filtro da base ou download em massa de grandes períodos e há uma falta de documentação e dicionário de dados. Isso dificulta o nosso trabalho quanto maior é o volume de informações com que lidamos. Além disso a metodologia que a SSP aplica para divulgação de estatísticas não é replicável aos dados da transparência e o órgão não é muito claro quanto à memória de cálculo que utiliza para divulgar seus números.

Datavizbr: Me conta um pouco qual tua perspectiva em relação ao CityVis Award e a repercussão em saber do resultado.

Cecília: Fiquei sabendo da competição através de um amigo que me incentivou a inscrever o projeto. Não tínhamos a pretensão de sermos selecionados. Mas a equipe toda ficou muito feliz em saber que nossa visualização urbana pôde competir em pé de igualdade com o jornalismo de dados da Alemanha, como a Spiegel Online, que foi a vencedora da categoria. Para nós é um sinal de que estamos no caminho certo e que devemos fazer cada vez mais visualizações urbanas sobre o Brasil.

Datavizbr: Como você acha que estamos aqui no Brasil na área de visualização de dados / jornalismo de dados? O que falta? O que achas necessário a gente divulgar mais?

Cecília: Acho que o jornalismo de dados no Brasil é muito promissor e tem mostrado bons frutos. O último prêmio Esso foi vencido por uma reportagem de dados. As dificuldades que o jornalismo de dados no Brasil encontra são as mesmas dificuldades históricas, conjunturais e atuais impostas ao jornalismo aqui em geral: crise de credibilidade e crise de modelo de negócio. Mas há uma dificuldade própria do jornalismo de dados do Brasil: dificuldade de formação e qualificação do profissional. As faculdades, mesmo as melhores, estão décadas atrasadas nesse aspecto. Também há uma falta de “educação midiática” que é o incentivo ao consumo crítico de informação e a uma postura não passiva diante da “dieta informacional” que recebemos.

Datavizbr: Para finalizar gostaria que deixasse para o pessoal, duas inspirações / referências de projetos que achas que pode ser interessante para quem está começando se espelhar.

Cecília: Um projeto simples e bem executado que ajuda a entender a realidade brasileira é o comparador de rendas do Nexo Jornal. Para mim ele foi muito marcante.

O segundo projeto que eu destacaria é do New York Times. O núcleo mais completo e qualificado de jornalistas de dados do mundo demorou 2 anos para publicar uma reportagem sobre os dados eleitorais da eleição de 2016 dos EUA. Isso mostra o tamanho do desafio para reportar histórias que antes não eram possíveis de serem reportadas.

Quem se interessa em fazer jornalismo de dados, o melhor caminho para se inspirar é ler muitas reportagens e seguir repórteres de dados, e começar a fazer por si próprio, seus próprios levantamentos.

Cecília do Lago é repórter no @estadaodados.


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.