Florence Nightingale, dois séculos de visualização de dados

Igor Falconieri

Dia 12 de maio é o dia internacional do enfermeiro porque é a data de nascimento de Florence Nightingale, fundadora da enfermagem moderna. Mas para designers e estatísticos, essa mulher virtuosa e transformadora que nasceu há exatos 200 anos é lembrada por outra de suas inovações: Florence é uma pioneira da visualização de dados e sua história recupera o quanto essa atividade tem um papel fundamental nas tomadas de decisões.

Em 1854, durante a Guerra da Crimeia, Florence chegou ao Império Otomano com seu time de 34 enfermeiras voluntárias treinadas com recursos filantrópicos que ela mesma havia levantado. A missão de Florence era assistir hospitais de campanha onde morriam mais soldados que em campo de batalha. Desde o começo, Florence não parou de registrar dados.

Quando retornou à Inglaterra com suas anotações, Florence conheceu o epidemiologista William Farr, então conhecido por seu trabalho baseado em evidência estatística sobre o último surto de cólera. Eles colaboraram na geração de ideias de representações gráficas para as extensas planilhas de Florence. À época, algumas inovações já eram conhecidas, como a série temporal (1786) e o gráfico de pizza (1801), ambos do engenheiro e economista William Playfair.

Florence construiu diversas visualizações que não serviriam apenas de ilustrações, mas como argumentos de seus relatórios: gráficos de barras, colunas empilhadas, compartimentação hexagonal e gráficos de área 100%. Mas sua assinatura viria a ser o diagrama de área polar, ou, a “rosa de Nightingale” — as seções do diagrama variam em extensão e a forma resultante lembra pétalas de uma flor.

Diagrama de área polar exibindo a mortalidade do Exército Britânico no Oriente entre abril de 1854 a março de 1855 e abril de 1855 a março de 1856 em comparação com aquela de Manchester. 1858

Florence desenhou essa solução para exibir e comparar taxas de mortalidade sazonais em três conjuntos:

  1. Comparava as taxas de mortalidade mês a mês em dois períodos de um ano entre as observadas na Crimeia e as da cidade de Manchester.
  2. Repetia os mesmos períodos mas examinava as causas da mortalidade dos soldados, mostrando que a maioria resultava de doenças evitáveis e não de mortes em batalha.

Diagrama de área polar com as causas da mortalidade do Exército Britânico no Oriente

Diagrama de área polar exibindo as causas da mortalidade do Exército Britânico no Oriente entre abril de 1854 a março de 1855 e abril de 1855 a março de 1856. 1858

  1. Continha a evidência da eficácia do trabalho de Florence: com três meses de intervenções sanitárias, os óbitos por 1000 pacientes dos hospitais de Scutari e Kulali reduziram à taxa equivalente dos hospitais militares da Grande Londres.

Diagrama de área polar com a mortalidade nos hospitais de Scutari e Kulali

Diagrama de área polar exibindo a mortalidade nos hospitais de Scutari e Kulali entre outubro de 1854 a setembro de 1855 em comparação com aquela dos hospitais militares da Grande Londres. 1858

Apesar de dispor das evidências, Florence lidava com a resistência teimosa de oficiais do exército. Mas ela se valeu de seu diferencial: seus dados eram convincentes e, graças à visualização, facilmente compreensíveis. Investiu em centenas de publicações próprias que chegou a enviar para oficiais de guerra, médicos, membros do parlamento, e para a própria Rainha Vitória.

Quando Florence se tornou uma figura frequente nos periódicos, chegou a publicar anonimamente — ser mulher na era vitoriana lhe tirava respaldo. Mas os dados apresentados por Florence eram explícitos demais pra ser ignorados. Assim Florence acumulou conquistas políticas para além da experiência na Crimeia, como a admissão de enfermeiras nas workhouses e a implementação de um projeto de saneamento na Índia.

Gravura "An Angel of Mercy" retratando Florence Nightingale no hospital de Scutari

An Angel of Mercy. Gravura do hospital de Scutari (atual Turquia). 1855

A trajetória de Florence Nightingale suscita dúvidas para nossa era: se nos ancoramos o suficiente em dados e métricas para orientar nossas tomadas de decisão; o quão acessíveis são nossos dados para quem precisamos alcançar; se estamos usando dados para confirmar hipóteses previamente enviesadas.

Os dados de Florence resultaram em progresso para muitas pessoas. O progresso é conquistado de maneira incremental por pessoas dispostas a observar as evidências.


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.