Traço, território: como se desenha o contorno de um país
Em junho desse ano recebi um convite da Laura Belik, arquiteta e urbanista e doutoranda em história e teoria da arquitetura na U.C. Berkeley. Ela toca o projeto Desestrutura, um site e publicação dedicado a “fomentar discussões sobre o que é o viver urbano hoje, em suas mais variadas escalas e perspectivas”. O convite era para participar de uma chamada aberta com o tema “Mapear Mapas”.
O material precisava caber em uma folha A4 e usar apenas três cores.
Navegando pela David Rumsey Historical Map Collection, um acervo online de mapas com cerca de 100 mil itens, atentei a um dos aspectos que se altera ao longo do tempo: os limites do território. Da costa fragmentada desenhada nas primeiras cartas, quando da colonização, ao polígono fechado e reconhecível que orienta espacialmente nossa noção de “Nação”, quantas formas não se desenharam?
O acervo da David Rumsey Map Collection
Imaginei que seria interessante construir um histórico desses traçados, visualizar de forma animada esse desenho se formando. Sendo uma única linha, seria simples de animar esse movimento usando Adobe After Effects.
Aproveitei a oportunidade para me dar mais liberdades metodológicas do que o trabalho em jornalismo de dados usualmente permite, explorando um pouco mais de intuição e subjetividade.
Naveguei por alguns dias por todo o acervo de mapas listados como “Brasil”, selecionando aqueles que contivessem um traçado claro dos limites do Brasil e tivessem alterações interessantes no traçado em relação ao mapa anterior. Me concentrei exclusivamente no plano da imagem, desconsiderando diferenças de projeção e escala entre os mapas.
Esse não é um trabalho rigoroso ou até mesmo orientado por dados. Uma análise científica da evolução do território brasileiro obviamente traria diversas outras complexidades.
Uma vez analisado o acervo, coletei 87 mapas diferentes — o mais antigo, de 1587, e o mais novo de 1967. Acrescentei também o mapa político do Brasil de 2016, do IBGE, para obter um ponto final completo para a animação.

Dispus todos em um documento de Adobe Illustrator e desenhei livremente o traçado em uma mesa digitalizadora, formando um vetor que poderia ser animado mais tarde. Uma vez desenhados, os traçados foram levados ao After Effects. Queria que a ação toda fosse rápida — a ideia era transmitir a sensação de uma linha rapidamente se moldando em um polígono. Dei cerca de 10 frames para cada mapa, resultando em um ritmo frenético e vivo.
Como uma experimentação descompromissada, esse projeto foi um respiro muito bem-vindo que permitiu explorar a ideia de limites: os limites do acervo de mapas sobre o território, limites das convenções cartográficas e os limites do significado desse traçado.

Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.