Precisamos falar sobre mapas eleitorais

Ricardo Cunha Lima

Depois da enxurrada de gráficos de pandemia, somos mais uma vez tomados por visualizações, mas essa é a vez dos mapas eleitorais.

Mapa eleitoral do Google

Mapa eleitoral do Google

Hoje, enquanto o mundo comemora a vitória de Biden sobre Trump não podemos esquecer os dias que passamos acompanhando cada passo desta eleição. Todo dia, ao entrar no Google e ver o mapa das eleições, ainda parece que os republicanos estão ganhando. A razão é bem conhecida: os estados na região central do mapa, em que os republicanos ganharam, têm pouco peso eleitoral mas ocupam uma região maior.

Mapas eleitorais são enganosos

Mapas eleitorais são enganosos. No caso dos Estados Unidos, isso é especialmente problemático já que as suas regras eleitorais são confusas, não dependem apenas da quantidade de votos.

Em 2019, Lara Trump tweetou um desses mapas enganosos que sugerem que a maioria dos americanos votaram no Trump em 2016, exultando: “Try to impeach that.”

Tuíte de Lara Trump com mapa eleitoral por condados e a frase "Try to impeach this."

O designer de informação belga, Karim Douïeb, leu o tweet e criou um gif animado que transforma os condados dos EUA em um mapa de bolha que mostra proporcionalmente as quantidades reais de votos, desconsiderando a informação irrelevante: o tamanho de cada condado. O gif viralizou e ele ganhou 7.000 seguidores novos no twitter. Uma versão modificada adicionou a frase “land doesn’t vote, people do.”

Mapa eleitoral de Karim Douïeb transformando condados dos EUA em um mapa de bolhas proporcional aos votos

Mapa eleitoral de Karim Douïeb

No entanto, o gif de Karim não é necessariamente a solução ideal: o mapa de bolhas é notoriamente impreciso, as circunferências das “bolhas” são difíceis de comparar.

Cartogramas: uma solução melhor

Versão da cartograma da FiveThirtyEight animado por Karim Douïeb

Versão da cartograma da FiveThirtyEight animado por Karim Douïeb

O cartograma é um tipo de visualização de dados que distorce a forma de um mapa para representar mais claramente os dados não-geográficos.

Cartogramas em infográfico das eleições de 2020 da New Yorker

Cartogramas em infográfico das eleições de 2020 da New Yorker

A New Yorker usou quadrados coloridos para representar a totalidade de votos do colégio eleitoral de cada estado, diminuindo a percepção de que a maioria do país é vermelho. No entanto, a geografia ficou muito distorcida.

Cartogramas da eleições de 2020 do Financial Times (para celular)

Cartogramas da eleições de 2020 do Financial Times (para celular)

O Financial Times superou essa limitação. Na versão para celular, usou conjuntos de pequenos quadrados para representar cada estado, mantendo semelhança geográfica com o original. A cor vermelha dos quadrados foi rebaixada, equilibrando sua hierarquia com o azul.

Quantidade vs. tamanho

Comparação entre visualizações do estado do Texas

Comparação entre visualizações do estado do Texas

O G1 optou por mostrar a quantidade de votos pela metáfora do tamanho dos quadrados; o Financial Times preferiu metaforizar os dados pela quantidade de quadrados. Esta segunda opção permite que o leitor veja quantos quadrados cada estado possui, ao invés de tentar comparar o tamanho relativo.

No Sistema ISOTYPE dados eram representados por quantidade (à esquerda) e não por tamanho (à direita)

No Sistema ISOTYPE dados eram representados por quantidade (à esquerda) e não por tamanho (à direita)

Esta preferência por quantidade em detrimento do tamanho é uma das diretrizes básicas do ISOTYPE, método de visualização de dados criado por Otto Neurath.

Mapa da eleições de 2020 do Financial Times (para desktop)

Mapa da eleições de 2020 do Financial Times (para desktop)

Na versão para desktop, o Financial Times supera a versão para celular, unindo cartograma e mapa geográfico: o cartograma é inserido em um mapa geográfico dos EUA rebaixado (em cinza claro) ao fundo.

Conclusão

Designers de informação precisam refletir sobre o tipo de visualização de dados que escolhem utilizar. Cada escolha tem consequências que vão além de problemas de leitura de dados. Mapas podem servir para fins políticos, podem mentir, mesmo que involuntariamente, e podem ser usados para manipular leitores despreparados.

A inspiração para olhar o design de informação da política vem do livro How Charts Lie, do designer, jornalista e professor Alberto Cairo, entrevistado pelo autor no podcast Visual+mente.

Arte do episódio "Conversas com Alberto Cairo" do podcast Visual+mente e capa do livro How Charts Lie, de Alberto Cairo

Ricardo Cunha Lima é infografista doutor em design de informação, professor adjunto na UFPE e co-fundador do podcast Visual+mente.


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.